Cenário global para 2026
Consolidação da Segunda Guerra Fria e uma aposta no Brasil
Mais do que o presidente, seu secretário de estado Marco Rubio representa melhor o posicionamento do EUA nesta Segunda Guerra Fria, descendente de cubanos e nascido em Miami, as origens e o posicionamento dele lembra o de Alexandre Hamilton, e não tem nada a ver com o slogan “America First” que conquistou isolacionaistas, ou seja, a “Pax americana” renasceu.
Vocês foram avisados, quando comecei esse exercício fútil de fazer previsões do cenário global, avisei que estávamos entrando em uma Segunda Guerra Fria, porque “o Eixo do Mal havia acordado o Tio Sam”, o que vimos até agora foi a evolução do que venho comentando desde 2023, segue a lista dos textos abaixo:
2022 e os mercados: o fim da nossa “belle époque” e a nova Guerra Fria
O Brasil na Segunda Guerra Fria
Este ano vou manter a estrutura do ano passado, fazer uma prestação de contas do ano anterior, depois refletir sobre os mercados na ordem que fazemos: EUA, China, Europa e Brasil; como achei que o último ficou muito prolíxo, dessa vez tentarei usar mais gráficos e ser mais objetivo, boa leitura!
Obs.: Obviamente, isso não é uma recomendação de investimento, nem relatório de análise de preço e valor atual, não afirmo em nenhum momento do texto que é para comprar ou vender, não estabeleço um preço justo ou alvo para quaisquer ativos, nem faço projeções para os preços que podem vir a negociar no futuro. A despeito da maioria ansiar por uma certeza, eu duvido das minhas próprias ideias, considere-se avisado da minha humildade e falibilidade, leia abaixo consciente que são apenas minhas reflexões.
Prestação de contas
Esse é o gráfico semanal da AURA33, mineradora de ouro que negocia na B3, deixa eu começar admitindo um erro colossal, como que eu consegui falar de Segunda Guerra Fria em 2023, 2024 e 2025 e não conectei isso com essa ideia tão óbvia? Comprar ouro em cenário de conflito é mais velho do que o ato de escrever! Ridículo.
Nos EUA também errei, pelo menos em parte, teve correção sim, o SPX chegou a cair mais de 15%, mas depois voltou e fechou subindo 20% no ano, e o culpado não foi o Huang, foi o Trump com o tarifaço.
Esperava uma correção principalmente pelo investimento massivo que as big techs fariam em IA, até comentei que isso era assunto pra 2025 ou 2026, isso não bateu forte no SPX ainda, mas o fluxo já começou a procurar outros mercados.
Concluí EUA com a frase a seguir: “Acho que o fluxo de dinheiro da Segunda Guerra Fria vai espalhar para outros países”; acho que isso foi um acerto.
Na China, apesar dessa alta de 34%, não houve grandes mudanças, a crise imobiliária continua, os estímulos industriais continuam, mas eles não conseguiram avançar de forma significativa com os estímulos ao consumo e uma reforma financeira.
Como antecipei, o que tivemos foi uma mudança de fluxo procurando outros mercados além do EUA, mas o cenário na China continua preocupante, o número de pessoas falando em “grande ruptura” continua aumentando.
Na Europa, terminei com a seguinte frase: “mas países menores aproveitando a aliança com a OTAN, essa parceria com os norte americanos deve continuar sendo positiva para eles, dá para pensar em ETFs desses países negociados no EUA”; depois de citar a Polônia, cujo ETF EPOL subiu 76% em 2025, outro acerto!
No Brasil, fui sucinto porque havia escrito naquelas semanas alguns textos explicando o porquê de continuar comprado aqui, terminei com: “Enfim, correndo risco de errar a terceira vez, compre ações brasileiras”. Não preciso dizer que dessa vez acertei!
Por fim, concluí dizendo que Putin caía ou perdia muita influência, no último Davos, começo de 2026, isso ficou evidente, presidentes e primeiros-ministros de países europeus sendo muito claros no isolamento dos russos, uma lástima, vão se isolando como os norte coreanos, virando um vassalo chinês, isso deve continuar em 2026.
EUA: o fim do excepcionalismo norte americano?
Essa é a taxa de juros de 10 anos do título público do EUA, é um dos principais vetores de preço para ativos de longo prazo no mundo inteiro, o assunto quente do momento é que essa taxa vai continuar subindo, afetando a economia do EUA.
Vamos olhar o copo meio vazio primeiro, na Primeira Guerra Fria essa taxa subiu bastante, então poderíamos ver algo parecido? Estamos partindo praticamente do mesmo nível agora, mas em uma economia muito diferente, naquela época tivemos barril de petróleo explodindo em uma economia menos baseada em serviços.
Agora vejamos o copo meio cheio, estamos no mesmo nível da taxa antes da Primeira Guerra Fria, até com uma taxa um pouco acima da média dos últimos 30 anos, com uma economia mais parecida com a atual, mais serviços. Mas e se tivermos um problema de energia ou gargalo de chips? Inflação pode vir de outros lugares?
Por que acho melhor ver o copo meio cheio? Não foi mérito do Clinton entregar o governo com superávit, foi do boom da internet, não vai ser mérito de um futuro presidente também, vai ser do boom da IA.
O ganho de produtividade e a expansão da economia de serviços vai manter essa taxa de juros nesses níveis ou abaixo, mesmo que governos gastem mais, porque com todos os países nessa corrida da Segunda Guerra Fria, os investidores vão ser complacentes.
Isso não vai se refletir necessariamente no SPX, porque as maiores serão cada vez mais intensivas em capital, mas novas vencedoras devem surgir no EUA à medida que a IA entra em nosso dia a dia, os primeiros IPOs das futuras vencedoras devem começar a aparecer este ano, infelizmente isso só ficará óbvio daqui a 5 anos ou mais.
Enfim, acho que SPX deve perder pros principais índices em 2026, como foi em 2025, mas algumas empresas que aproveitarem melhor IA devem ir muito bem, o “stock picking” voltará a ser melhor do que o investimento passivo a partir de 2026.
China: o Império do Meio ou a Grande Ruptura?
Nem um, nem outro. Não é que porque estou de fora, mas essa subida do ouro não é sustentável, pode não cair muito, mas sobe pouco daqui pra frente, porque em 2025 a Casa Branca mostrou que: “manda quem pode, obedece que tem juízo”. Na imagem, o Imperador e seus principais vassalos, cada vez mais isolados.
O nacionalismo chinês de Xi parece com o japonês pré Segunda Guerra Mundial assim como o cenário econômico chinês parece com o japonês pós Primeira Guerra Fria, o primeiro impossibilita o Império do Meio, o segundo a Grande Ruptura.
Para se consolidar novamente, depois de vários séculos, como Império do Meio, os chineses precisariam disputar a liderança tecnológica global, o que a Casa Branca bloqueou, precisariam ascender a uma renda média acima de 50 mil dólares, o que é impossível com milionários fugindo (imagem abaixo), e precisariam expandir influência militar e econômica, o que é impossível sem um mercado consumidor interno ascendendo para rivalizar pelo menos com o europeu.
Esse número de milionários fugindo cresce desde de 2017 e deve bater recorde em 2025, mesmo muitos pesquisadores afirmando que deve estar subestimado, é o mais determinante tanto para a impossibilidade do novo “Império do Meio”, quanto para a “Grande Ruptura”, porque condena a economia do país e a população junto.
Atualmente usa-se o termo Grande Ruptura em dois contextos, primeiro para sinalizar o distanciamento entre EUA e China, que não vai acontecer porque os chineses dependem dos mercados consumidores do Ocidente, segundo para um evento político interno em Pequim, quebrando o PCC, que também não vai acontecer porque as pessoas que poderiam liderar isso estão fugindo, porque a população chinesa foi desarmada por Mao a várias décadas e porque o controle populacional é muito mais amplo e eficiente com a tecnologia (que eles estão exportando para outras ditaduras).
Então o que parece mais provável? Os chineses vão continuar aumentando a renda média per capita para níveis mais próximos da Coreia do Sul do que do Brasil, o que afasta risco de cisma interno, pelo menos até o problema demográfico começar a fazer preço, o que deve acontecer na próxima década, ou seja, economia vai continuar crescendo entre 2 e 4% por alguns anos com investimentos públicos direcionados e aceitação escondida das imposições da Casa Branca.
É justamente por aceitar as condições ocidentais que o melhor investimento na China está fora do consenso, em vez de comprar índice chinês, os ativos que vão performar melhor são as empresas chinesas que conseguem competir globalmente, mesmo com limitações ocidentais, enquanto as voltadas para mercados locais devem sofrer com situação econômica local cada vez pior com Xi evitando o remédio amargo.
Além das exportadoras, anote que a China não invade Taiwan em 2026, não deixa quebrar construtoras e continua salvando as províncias, eles não terão a coragem que os coreanos tiveram em 1997, vão fazer igualzinho os “inimigos” japoneses.
Europa: a força da democracia capitalista
O consenso mais ridículo do momento é a falência da Europa, o Estado de Bem Estar Social, a islamização e o declínio econômico líquido e certo da região que tem o segundo maior mercado consumidor do planeta. Em 10 anos vamos rir disso.
A força da democracia capitalista está na capacidade de mudar de rumo, na alternância do governo, o EUA não é bem sucedido por mérito dos democratas ou por mérito dos republicanos, mas porque eles se alternam no poder a mais de 100 anos, o mesmo acontece, num grau um pouco menor, na maior parte da Europa.
Todo mundo está falando de bolsas emergentes subindo, listam Colômbia (+115%), Brasil (+50%), México (+56%) e Coreia do Sul (+100%), mas quase ninguém fala de Grécia (+83%), Hungria (+78%), Polônia (+76%) e República Tcheca (+74%).
A lista é ainda mais interessante nos desenvolvidos, os mercados que mais subiram em 2025 foram: Espanha (+83%, na imagem), Áustria (+80%), Finlândia (+60%), Irlanda (+58%), Itália (+57%), Portugal (+38%) e Suécia (37%). Só Europa no top 7!
A narrativa atual ainda é a de que o continente europeu está fadado à irrelevância, mas os mercados estão virando com o fluxo voltando, como comentei nos textos anteriores, e com a indústria 4.0 tendendo a ficar mais próxima dos mercados consumidores, o normal é que ela seja instalada no EUA e na Europa!
Depois da forte alta de 2025, a gente tende a ficar um pouco menos otimista com a continuação da alta, mas não acho que esse fluxo acabou, muito pelo contrário, deve sustentar ao longo de 2026, parece uma boa esperar uma correção pontual e fazer um “caiu, comprou”, principalmente nos emergentes mais alinhados à OTAN.
Na Europa deve ter uma corrida de datacenters parecida com a do EUA, empresas de equipamentos elétricos essenciais para isso, fornecedores de HVAC e fornecedores militares devem ir bem nos próximos anos.
Brasil: uma aposta na terceira via
Tanto bolsonaristas quanto petistas vão rir disso, mas existe uma chance de ter terceira via nessa eleição presidencial de 2026, essa parece demais com a de 2014, quando Aécio era a terceira via e foi para o segundo turno, mas tem uma diferença.
Deixa eu fazer uma mea culpa, não vamos falar de economia nem fluxo de emergente aqui, porque se o governo atual perder, o preço vai subir como aconteceu na Colômbia em 2025, subiu muito mais que demais emergentes, mesmo fundamento piorando.
Agora vamos ao cenário da terceira via, se vocês se lembram, na última eleição as opções de terceira via não eram governadores, não tinham apoio de partidos grandes com bandeiras nacionais e não tinham plataforma grande o suficiente pra concorrer, isso é completamente diferente agora, o PSD vai lançar um dos governadores que estão na imagem acima, acho que isso cria uma chance não desprezível de escaparmos da polarização da última eleição.
Esse é o DI futuro 2029 no gráfico semanal, acredito que em um cenário de terceira via nós voltaríamos para DI de um dígito, isso muda completamente a precificação dos ativos e mesmo uma probabilidade de 10% disso acontecer é muito relevante para ser ignorada, ou seja, é sobre a assimetria de resultados.
É óbvio que o cenário mais provável é a polarização, mas se o governo atual se mantiver, o juros não devem cair muito, se a família Bolsonaro voltar, ainda ficaremos com juros a duplo dígito, só que no caso da terceira via a queda do DI será excelente!
Mais uma vez, os convido a pensar fora do consenso, essa eleição não é sobre o segundo turno, que será Lula (ou seu candidato) contra um anti-petista, essa eleição é sobre quem irá com ele para o segundo turno, porque alguém da família Bolsonaro deve perder para um petista, mas um dos governadores seria o próximo presidente.
A grande aposta de 2026 no Brasil é o primeiro turno, então nós vamos ter uma boa ideia do que vai acontecer já no fim de setembro, os candidatos podem ser confirmados até 15 de agosto, bem próximo do pleito, mas os candidatos exercendo cargo de governador precisam renunciar até 4 de abril.
Se eu fosse o Kassab ainda estaria tentando convencer o Tarcísio, porque se ele renunciar ao cargo de governador de SP até 4 de abril, esse DI cairia e a bolsa voaria, mas como isso parece pouco provável, acho que a partir de abril nós vamos ver uma mobilização para lançar uma combinação de governadores, Ratinho com Zema é a minha aposta principal, mas não duvido de Ratinho e Leite também.
O que vai acontecer a partir daí é um crescimento dos governadores nas pesquisas, não vai ser rápido, vai ser aos poucos, à medida que eles vão rodando o país e ficando mais conhecidos, o preço em bolsa vai subir acompanhando, numa correlação tão parecida, que vamos ver vários posts de maio a agosto mostrando isso.
Como os petistas se sustentam atacando os Bolsonaros, os governadores não vão apanhar desse lado por meses, não que os petistas não saibam disso, mas sem antagonizar o ex-presidente correm risco de perder votos, o que os colocaria em risco.
Já os Bolsonaros vão bater nos governadores sem dó, como já vem fazendo, mas vai piorar, o que vai acabar tendo o efeito contrário do que pretendem, porque o voto de centro que votou no Lula por falta de opção vai ver nos governdores uma opção anti-bolsonaros, é por isso que existe uma chance não despresível de terceira via.
Vai ser mais ou menos assim, só é difícil dizer a partir de quando. A diferença estará no segundo turno, se um governador passar, o lado bolsonarista não vota em petista de jeito nenhum e o centro terá um candidato viável, daí a eleição apertada de 2022 não vai se repetir, porque o eleitorado continua virando para a direita.
Em 2022, é bom lembrar, Bolsonaro elegeu muitos deputados e senadores, ele não se reeleger foi pura rejeição a ele, não à direita. Em 2024, urge ressaltar, tivemos uma eleição municipal muito favorável à centro-direita, reforçando os problemas do governo atual no Congresso, esse movimento continua avançando.
Por fim, não nos esqueçamos, o mais provável é a polarização, o cenário é 45% petistas, 45% bolsonaristas e 10% governadores de direita, então essa aposta que descrevi é o menos provável, mas se acontecer é de longe o melhor resultado para os preços dos ativos, seria uma mudança relevante no cenário dos próximos 4 anos.
Obs.: Ratinho presidente está pagando 20 pra 1 na Polymarket!
Cenário global para 2026
Voltando à força, ou beleza, da democracia, o evento mais importante de 2026 para o mundo é a eleição para o Capitólio, as pesquisas indicam que a dupla acima vai perder influência e isso pode ser decisivo para os planos da Casa Branca.
O cenário mais provável até o momento é de manutenção no Senado e perca de maioria na Câmara, o que já dificultaria a política econômica do Bessent e poderia reverter o fluxo para emergentes que vimos em 2025, acho que esse é o principal vetor para a correção que acho que vale a pena esperar nos emergentes.
Mas isso não muda em nada nosso cenário de Segunda Guerra Fria, Washington está 100% comprada com a necessidade de diminuir a influência da China, o que implica em continuar fazendo com que a indústria global saia de lá, isso vai continuar pressionando Pequim a estimular a economia local e aceitar exigências ocidentais.
Como escrevi nos textos anteriores, esse cenário é muito positivo para o resto do mundo, porque essa Segunda Guerra Fria com dois sistemas capitalistas acaba implicando no aumento de investimentos em tudo que é lugar, com as duas potências concorrendo para ver quem é mais relevante economicamente, é compra! É por isso que os economistas estão sendo surpreendidos com economias pujantes mesmo depois dos juros terem subido tanto entre 2022 e 2023.
Os chineses vão continuar exportando deflação, os países continuarão criando restrições para isso, então ações de empresas que sofreram com competição chinesa podem se beneficiar em 2026.
No Oriente Médio, o plano de Israel e Arábia Saudita, apoiados pelo EUA, continuará avançando e a região não terá escalada de conflitos tão cedo, não seria surpresa se o regime iraniano cair em 2026, isso é do interesse de todo mundo nessa altura, os chineses vão deixar acontecer como fizeram com Maduro, porque a amizade com os sauditas vai ser mais interessante do que a fraca produção de petróleo dos iranianos.
Por fim, mas não menos importante, se Neymar não for pra Copa, o Brasil não estará entre os favoritos, então temos grandes chances de trazer o Hexa em 2026!
















